quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Poesia Canção do Exílio


Murilo Mendes de forma ousada escreve sua 'Canção do Exílio', com humor critica a ( tão atual) realidade cultural brasileira. Faz uma paródia da célebre 'Canção do Exílio', de Gonçalves Dias.

Nos mostra que temos muito a oferecer e que tudo que temos tem valor, pena que o povo ama o estrangeirismo e valoriza a cultura do outro.


Canção do Exílio
                                   Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas.
Os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossa flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil-réis a dúzia.


Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de identidade!
                                                                                                                                        
                                                                                                                                              Extraído do livro: Poemas e Bumba-meu-Poeta




Canção do Exílio
                            Gonçalves Dias


Minha terra tem palmeiras, 

Onde canta o Sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar - sozinho, à noite - 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que disfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu'inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 

                                                                                            De Primeiros cantos (1847) 



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